retrato social

Emicida no ‘Roda Viva’: ‘Apologia ao crime é a forma como o brasileiro vive’

Rapper afirma que Bolsonaro é antagônico aos valores humanísticos do movimento hip-hop

TV CULTURA/REPRODUÇÃO
Para Emicida, a naturalização do racismo na sociedade mostra que a democracia do Brasil possui falhas, principalmente ao não proteger as pessoas não brancas

São Paulo – O presidente Jair Bolsonaro não tem a mínima conexão com o que representa a cultura hip-hop. Na avaliação do rapper e empresário Emicida, convidado do Roda Viva, da TV Cultura, nesta segunda-feira (28), o chefe do Executivo é antagônico aos valores humanísticos do movimento cultural.

“Eu nunca aceitaria me encontrar com Bolsonaro porque os valores dele são totalmente contrários a tudo que acredito”, afirmou o artista de maneira enfática, também criticando a forma com que o rap, por muito tempo, foi associado à criminalidade.

Para Emicida, dizer que essa cultura tem condescendência com o crime é uma análise preconceituosa. “A música faz um retrato do lugar de onde as pessoas vivem. Apologia ao crime é a forma como o brasileiro vive”, criticou. “Se isso fizer de você um apologista ao crime, tem que pegar o Datena que faz isso todo dia na televisão, empurrando morte e crime na goela da sociedade, e entendem como jornalismo”, acrescentou.

Os valores coletivos do movimento são levados como filosofia no seu selo Laboratório Fantasma, na qual ele classifica como um “quilombo”. “A gente fala sobre vencer de uma maneira coletiva num ambiente de adversidade, isso só é possível ao se conectar com nossa comunidade. A conquista do Emicida precisa ser a da tiazinha que costura nossas roupas”, disse.

Racismo

Durante o programa, Emicida também respondeu questões sobre o racismo. Casos como o de George Floyd, nos Estados Unidos, não representam o aumento da violência policial, segundo o rapper, mas uma visualização menos mascarada da realidade.

“O racismo está sendo filmado e compartilhado nas redes sociais. Para nós, que sentíamos o peso dessa estrutura diariamente, não é novidade ver uma imagem como a do George Floyd ou da senhora de Parelheiros. Porém, tem um elemento mais dramático. Todo mundo está atravessando um momento muito difícil com a pandemia, e nem assim o racismo dá trégua”, lamentou.

A naturalização do racismo na sociedade mostra que a democracia do Brasil possui falhas, principalmente ao não proteger as pessoas não brancas. “Elas são perfis de suspeito, não de cidadãos. Enquanto elas pisarem nas ruas estigmatizadas, não podem ansiar por esse modelo de democracia. A democracia brasileira é sabotada todos os dias pelo racismo.”

Outros assuntos

No Roda Viva, ele também comentou sobre o fato das religiões de matriz africana serem os principais alvos dos ataques de vandalismo. Em sua avaliação, esse ódio não é só fruto da intolerância religiosa, mas do racismo provocado pelo fundamentalismo religioso.

“Por isso não temos templos budistas e sinagogas vandalizadas. O cristianismo distorcido transforma o cidadão de bem numa arma de destruição em massa. O cristianismo é uma religião que fala de amor. Essas pessoas fundamentalistas seriam as mesmas que assassinariam Jesus hoje, mas utilizam o nome dele para produzir uma série de outros crimes”, apontou.

Já sobre a pandemia do novo coronavírus, Emicida afirma que o momento serve para analisar a sociedade e entender essas movimentações autoritárias que empurram para situações que poderiam ser evitadas. Na avaliação dele, a população, assim como o presidente, ignoraram a gravidade do vírus.

“Isso resultou em respostas negativas, como o veto da entrada de brasileiros na Europa. A imagem do Brasil está sendo totalmente deteriorada. A gente não fala mais sobre o controle do contágio, estamos falando sobre a pandemia no passado. Isso mostra que a ideia inicial de “gripezinha” acabou distribuindo e alcançando setores opostos ao bolsonarismo”, criticou.