Mobilizados

Professores do Rio: repúdio a vídeo patronal e greve contra a volta às aulas

Donos de escolas particulares engrossam postura que nega mortalidade aa pandemia. Professores se mobilizam para greve a partir da semana que vem, quando está marcada a volta às aulas no Rio

Sinepe-RJ/reprodução
Vídeo que anunciou volta às aulas no Rio em 3 de agosto, teve repercussão negativa e foi retirado das redes sociais

Rio de Janeiro – O pé de guerra entre os professores e demais trabalhadores da educação do Rio de Janeiro de um lado e, do outro, o prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) e os donos de escolas particulares, que fazem pressão pelo retorno às atividades presenciais a partir de 3 de agosto, ganhou motivação extra. Após a divulgação de um vídeo promocional do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Rio de Janeiro (SinepeRio), entidade patronal que prega o retorno às salas de aula, a disposição para a mobilização aumentou. O vídeo, considerado criminoso pela categoria, surge às vésperas da realização de assembleias no próximo fim de semana que, segundo dirigentes dos sindicatos dos trabalhadores, aprovarão a proposta de greve unificada nas redes municipal, estadual e privada.

Com pouco menos de um minuto, o vídeo do SinepeRio diz que “os meses se passaram” e que “aprendemos a conviver com o vírus”. Diz também que “a covid-19 nunca irá de todo, o que acaba é o medo”. Na defesa da volta imediata às aulas, os donos de escolas afirmam: “Hoje, sabemos lidar, tratar, nos proteger, respeitando as rotinas, as regras e os protocolos. Estamos prontos. Fizemos o dever de casa. A escola privada está pronta para reiniciar”.

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Na parte considerada mais grave da mensagem, segundo os sindicalistas, os donos de escola criticam a necessidade de isolamento social estabelecida pelos cientistas e pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como medida mais eficaz para conter a pandemia: “Estudos só confundiram. Trancar todos em casa não é ciência. Confinar é desconhecer, ignorar, subtrair vida, é fragilizar, debilitar, mexer com o emocional. As crianças precisam voltar a se relacionar, brincar, refazer laços e amizades, rever seus amigos. É hora de reflorir, recriar no novo tempo. O sol precisa tornar a brilhar!”.

Caiu mal, muito mal. “Esse vídeo é uma declaração de guerra aos professores da rede privada. A repercussão foi tão negativa e causou uma reação tão grande de mães, pais, professoras e professores que eles o retiraram de suas redes sociais”, conta o vice-presidente do Sindicato dos Professores do Rio de Janeiro (Sinpro-RJ), Afonso Celso. Ele lista “algumas barbaridades” contidas no vídeo, como a afirmação de que todas as escolas particulares estão preparadas para essa volta: “A gente tem visto que isso não condiz com a realidade”.

Os donos de escola, diz Afonso, engrossam uma postura fundamentalista que já predomina na Prefeitura do Rio e no governo federal. “O vídeo diz que as crianças estão sofrendo mais confinadas em casa, diz que isolamento social não é ciência, desrespeitando tudo o que a comunidade científica internacional vem afirmando, ou seja, que a melhor maneira pra você controlar a pandemia é justamente o isolamento. Não é à toa que o Brasil é o país com o segundo maior número de casos.”

Assembleias virtuais

Afonso Celso afirma que os professores de escolas particulares podem deflagrar o movimento grevista a partir da próxima semana. “Vamos fazer uma assembleia virtual no próximo sábado (1º) e vamos reafirmar a nossa chamada de greve pela vida, que é a greve contra as atividades presenciais. Nós, em nenhum momento, estamos nos negando a dar aulas virtuais. Mesmo considerando que essa é uma demanda que exige um sacrifício muito grande, um esforço muito maior, mesmo assim estamos preferindo esse modelo porque consideramos que ainda não é o momento de retorno”, diz o sindicalista.

A greve também deverá ser aprovada pelos trabalhadores das redes públicas. Uma assembleia virtual dos professores da rede municipal será realizada na quinta-feira (30). No sábado será a vez dos professores da rede estadual. “Teremos uma semana inteira de mobilizações nas redes municipal e estadual do Rio de Janeiro em defesa da saúde e da vida e para que consigamos evitar a reabertura das escolas para as atividades presenciais para professores e funcionários. Pedimos a todos os que estão sendo convocados para retornar às escolas no dia 3 de agosto que participem das assembleias”, diz Izabel Costa, coordenadora-geral do Sindicato dos Profissionais da Educação do Estado (Sepe-RJ).

Em nota enviada à categoria, o sindicato dos professores do Rio reafirma sua posição. “Num momento em que a importância da preservação das vidas se torna essencial, não podemos permitir que governos sem qualquer compromisso para com o bem-estar da população coloquem em risco a saúde da categoria e dos nossos alunos por meio de uma precipitada reabertura das unidades escolares.” O documento cita o fracasso de outros retornos precipitados: “Lembramos que em vários países que promoveram a reabertura das escolas, as autoridades tiveram que voltar atrás por causa da volta do aumento do número de casos. No quadro atual da pandemia do coronavírus no país, não temos dúvida em afirmar que as escolas devem ser as primeiras a fechar e as últimas a reabrir”.

Levantamento

O vice-presidente do Sinpro-RJ pede respeito à ciência. “Nós estamos sempre em contato com a Fiocruz, que nos tem dado um subsídio bastante grande, e é com base nesse estudo científico que a gente acredita que às aulas não devem retornar”, diz. A Fundação Oswaldo Cruz lançou na semana passada novo documento no qual reitera o alerta de que a volta às aulas no Rio acontecerá antes da hora e representa um grave risco para a saúde pública: “Diante da possibilidade de recrudescimento de casos e óbitos no município do Rio de Janeiro, a reabertura das escolas parece prematura”, afirma a publicação da Fiocruz.

Já levantamento realizado pelo vereador Reimont (PT) com os professores do Rio mostra que 80% dos entrevistados se consideram “extremamente inseguros” diante da possibilidade de volta às aulas no início de agosto. A pesquisa levantou ainda questões como o número médio de alunos por turmas, o número de profissionais que fazem parte de grupos de risco e as condições de higiene das salas de aula, entre outras. “O processo de retorno às aulas é complexo e exige uma ampla análise e um amplo debate sobre quando será o melhor momento e de que maneira se dará para garantir de forma segura a saúde e a vida de milhares de pessoas”, diz o parlamentar.