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Cloroquina: deputado vai à PGR acusar Bolsonaro de ‘iludir o povo’ e ‘charlatanismo’

Rogério Correia, do PT, diz que presidente promete cura, apesar de a cloroquina ser um remédio sem eficácia científica e com efeitos colaterais graves

Reprodução/Youtibe
Bolsonaro mostra suposto comprimido de "hidroxocloroquina" (sic), antes de ingeri-lo. O correto é hidroxicloroquina

São Paulo – O deputado federal Rogério Correia (PT-MG) afirma estar concluindo a redação, junto a um escritório de advocacia, de denúncia a ser protocolada na Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o presidente Jair Bolsonaro. A peça acusa o presidente de “propaganda enganosa” da cloroquina – e do seu composto, a hidroxicloroquina – como medicamento eficaz contra a covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus. A peça deve ser entre à PGR até esta terça-feira (14).

Bolsonaro será acusado de “iludir o povo, prometendo cura por um remédio sem eficácia científica e com efeitos colaterais graves”, e também de charlatanismo. “Tem de investigar improbidade “, defende Correia.

O presidente será ainda acusado de desperdício de dinheiro público, considerando que o Exército, segundo Correia, gastou R$ 1,5 milhão em estrutura para a produção do medicamento.

O chefe do Executivo disse ter feito teste que acusou positivo para a covid-19. No dia seguinte, postou em suas redes sociais um vídeo tomando um comprimido de cloroquina. Correia afirma que Bolsonaro tem se comportado como um garoto-propaganda daquele medicamento, principalmente após afirmar que está contaminado.

“Debaixo dessa propaganda tem rolo”, disse o parlamentar nas redes sociais. Além da defesa da cloroquina como panaceia para combater a infecção, desde o início da pandemia Bolsonaro tem desafiado protocolos médicos e promovido aglomerações. Além disso, contrariou orientação dos ex-ministros da Saúde. Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, que desaconselhavam o uso do medicamento sem comprovação científica de sua eficácia no tratamento da covid-19.

“A eficácia ainda não é comprovada. Mas como politizaram a ciência, o que a gente está vendo é a ciência política, usando a cloroquina”, disse Mandetta após sair do ministério.

Farmacêuticas

A médica imunologista e oncologista Nise Yamaguchi, que defende o uso do remédio, e que só por isso foi cotada para assumir a Saúde após a queda de Teich, foi afastada do hospital Albert Einstein. Segundo ela mesma, em entrevista ao SBT , a razão foi sua defesa do uso da hidroxicloroquina (versão mais “leve” do medicamento).

Nem a Organização Mundial da Saúde (OMS), nem os cientistas, reconheceram até agora qualquer medicamento que combata a doença eficazmente.

Segundo reportagem do jornal O Estado de S. Paulo de sábado (11), a “campanha” de Bolsonaro pela cloroquina ajudou os negócios de empresas autorizadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a produzir o medicamento, usado no tratamento contra malária, artrite e lúpus. O diário citou dados do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma) segundo os quais o consumo da cloroquina no país cresceu 358% desde o início da pandemia.

O jornal cita o laboratório Aspen, do empresário Renato Spallicci, militante bolsonarista, segundo o Estadão. Também cita a EMS (que produz a versão genérica) e o laboratório Germed, ambos do empresário Carlos Sanchez. E ainda os laboratórios Cristália, do empresário Ogari de Castro Pacheco, e o francês Sanofi-Aventis, que vende cloroquina no Brasil.

O Sanofi tem um acionista ilustre: o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ele também vem defendendo o uso da cloroquina, além de ser ídolo político do presidente brasileiro.

Edição: Fábio M. Michel