Entrevista

Haddad: perdemos vidas e empregos todos os dias por causa do presidente da República

Ex-ministro e ex-prefeito diz no “Roda Viva” que campo democrático não deve repetir erros de 2018 que levaram à eleição de Bolsonaro, “a pior gestão do planeta”

Reprodução
Haddad no Roda Viva: "É um governo de métodos fascistas, do ponto de vista da forma de manipular as massas. É próprio do fascismo matar o cristianismo falando de Cristo."

São Paulo – A entrevista do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad ao Roda Viva começa com uma informação de impacto para os dias de hoje. A produção do programa da TV Cultura de São Paulo cita na abertura que Haddad foi ministro da Educação de 2005 a 2012. É o terceiro ministro da Educação mais longevo da República. Acima dele, na pasta criada em 1930, somente Gustavo Capanema (1934-1945) e Paulo Renato Souza (1995-2003).

O candidato que perdeu a eleição para Jair Bolsonaro em 2018 vê hoje o governo que acaba de completar 18 meses às voltas com a escolha do quarto ministro da Educação. Dois caíram não por combinação de incapacidade técnica e intelectual explícita, mas por cometer erros grosseiros na guerra política. Um terceiro nem chegou a ser empossado para poder demonstrar sua qualidades ou falta dela. Caiu depois de ter um currículo fake descoberto. Assim como na pasta da Saúde, em plena pandemia de coronavírus, a da Educação vai sendo tocada por um interino.

A explicação de Haddad para tanto troca-troca foi abordada em várias oportunidades. Primeiro, afirmou que desde sempre alertou que o Brasil correria muitos riscos com Jair Bolsonaro. Que o ex-capitão jamais se preparou para ser presidente. Nunca teve compromisso com a democracia nem com gestão pública. E que o governo Bolsonaro ostenta, por isso, o título de pior gestão do planeta. Ao lamentar a falta de unidade do campo democrático na eleição de 2018, inclusive por parte da imprensa hoje chocada com o governo, solta um quase “eu avisei” para quem o Brasil iria perder a eleição.

“Nós estamos perdendo vidas todo santo dia por causa do presidente da República. Nós não estaríamos nessa situação se tivéssemos um presidente à altura da importância do Brasil no mundo. Estamos perdendo empregos todos os dias por causa do presidente”, afirmou. “Infelizmente, nós temos a prova disso num momento de dor nacional. Em que a economia está em frangalhos. E já vinha nessa situação. O Guedes (ministro da Economia) não quer admitir, mas já estávamos, antes da covid-19, em retração econômica. Fica dizendo ‘nós estávamos a um milímetro do paraíso’ e estão aí os dados para provar: não estávamos coisa nenhuma.

Educação

As falas sobre educação, aliás, foram os momentos de maior temperatura da entrevista de Haddad ao Roda Viva. Primeiro, ao ser questionado sobre um suposto mau desempenho da oposição. Haddad mandou seu primeiro recado, indireto, aos comunicadores: a oposição não tem espaço, não tem voz. E lembrou aos perguntadores que ele, um dos três ministros que mais tempo passou no cargo, jamais foi chamado para opinar sobre a situação da educação. “Nunca neguei entrevista.”

Haddad demonstra entusiasmo ao mencionar feitos em sua gestão no Ministério da Educação, como a redistribuição de recursos para educação básica com objetivo de equilibrar o volume do orçamento. Lembra que para dois estados do Norte – Amazonas e Pará – e oito do Nordeste que recebiam menos recurso por habitante (exceção para Sergipe), a desigualdade foi reparada. Defende a ampliação de gasto público, sobretudo com educação, desde que haja projeto de gestão e acompanhamento do emprego dos recursos.

Menciona o impacto dessa reparação na qualidade do ensino público, que faz as escolas estaduais e municipais do interior do Nordeste terem desempenho melhor do que no Sudeste. E cita o desempenho de alunos de Oeiras  e Cocal dos Alves, ambas no interior do Piauí, sucessivamente vencedores de medalhas na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep).

Lula

Também causaram entusiasmo em Haddad no Roda Viva perguntas em torno do que a mediadora Vera Magalhães chamou de “lulocentrismo”. Ou seja, por que o PT, em vez de radicalizar numa “renovação”, insiste em levantar a bandeira das injustiças cometidas contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ou em ainda cogitar o nome de Lula para a disputa presidencial de 2022. Haddad não tergiversou. Afirmou que a verdade (sobre a perseguição judicial a Lula e ao PT) só não virá à tona “se desistirmos dela”.

0Mas e se o preço dessa obsessão pela verdade for mais uma derrota eleitoral em 2022, por falta de “entendimento” do campo democrático? “Não podemos ser prisioneiros da lógica da próxima eleição, nem ‘curtoprazistas’. A questão não é ‘o que eu preciso fazer para ganhar’ em 2022, mas o que fazer para recuperar parte do ativo político perdido (pelo avanço do antipetismo nos últimos anos).”

Questionado sobre as derrotas judiciais de Lula, que o levaram à prisão, a ficar fora de eleição e a ver um processo se arrastando, ainda pendente de julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), Haddad reitera: a “enorme quantidade de ilegalidades” cometidas contra Lula não dá para listar no programa. “Pela quantidade de evidências que já foram trazidas a conhecimento público (de que seus julgamentos foram viciados e que houve parcialidade dos julgadores), é claro que tem coisa errada aí. Não podemos deixar passar.”

E sobre por que insistir no protagonismo do ex-presidente, seja na base petista, seja nas discussões sobre futuras articulações de frentes políticas, Haddad diz à bancada virtual do Roda Viva algo parecido com o óbvio: Lula liderou a construção de um partido de bases, fez esse partido acreditar que era possível ganhar a presidência da República, ganhar quatro e foi o presidente mais bem avaliado da história.

Moro não cabe

Ao ser provocado se o ex-ministro Sergio Moro seria um democrata que caberia numa frente anti-Bolsonaro, Haddad respondeu ao Roda Viva que Moro usou o cargo de juiz com objetivos políticos, não cumpriu com o que se espera de um magistrado e que isso não é atitude de um democrata – portanto, Moro não cabe numa frente pela democracia.

Para Haddad, o Brasil lida com um adversário ardiloso – o bolsonarismo, que está sempre no “modo eleição”. Segundo ele, aliás, é típico da direita estar sempre no modo eleição, o que explica ceder o auxílio emergencial em tempos de pandemia ainda que seja contra e assim ver sua taxa de rejeição reagir entre os mais pobres. É um governo de métodos fascistas, segundo o ex-prefeito, do ponto de vista da forma como usa a massa, as mentiras e manipula valores como a religião. “É próprio do fascismo matar o cristianismo falando de Cristo. A falta de empatia, de solidariedade, usar a boa fé das pessoas, ser anti-ciência… Tudo é prática do fascismo. Mas não se pode condenar o eleitor.”

Para o ex-ministro, é possível se construir uma composição de forças contra Bolsonaro. Segundo Haddad, ainda que essa composição lide com ideias opostas no campo da economia, confronte desenvolvimentistas e liberais,  a opção pela democracia deve falar mais alto. Para ele, o processo de construção de uma frente democrática não pode repetir os erros de 2018.

“Cobrado” ora por não aceitar disputar a prefeitura de São Paulo na eleição deste ano, se o PT não teria optado por uma candidatura supostamente “pouco competitiva” – com o ex-secretário municipal de Transportes Jilmar Tatto – identificou uma certa contradição entre os jornalistas que questionam a falta de “renovação”. Disse que quando se aposta numa renovação não se começa com 20% nas pesquisas, e lembrou que ele mesmo começou na casa dos 2% das intenções de votos quando venceu em 2012.  Renovações, observou Haddad, se constroem.