Brasil

Em pior momento da covid-19 no Brasil, aglomerações aumentam. ‘Tragédia naturalizada’, diz Fiocruz

Poder público cede à pressão pela retomada das atividades econômicas, mas flexibilização da quarentena nas atuais condições pode levar a tragédia ainda mais longe

EPTV/Reprodução
Rua comercial de Campinas, interior de São Paulo. Cenas de aglomeração são cotidianas, mesmo em dias com piores números da pandemia. A última semana foi a mais letal

São Paulo – Enquanto a pandemia de covid-19 já deixa mais de 90 mil mortos no Brasil, as aglomerações de pessoas seguem cada vez mais frequentes. Sem dar ouvidos a sucessivos alertas, o relaxamento precoce e equivocado das medidas de distanciamento social pelo poder público provoca o abandono em massa dos cuidados recomendados. A volta das aulas presenciais devem aprofundar a calamidade.

Desde o início da pandemia no país, em março, a curva de novos casos e mortes segue em ascensão. O período prolongado de mortes em massa passa pela “naturalização da tragédia”, nas palavras de cientistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Ao contrário de outros países afetados pelo vírus que adotaram o isolamento social, o Brasil vive a estabilidade das mortes em momentos de pico, acima de mil mortos por dia.

Cenas de aglomeração são cotidianas, mesmo em dias com piores números da pandemia. A última semana foi a mais letal e com maior número de casos registrados. Ontem (30), foi o dia de maior número de mortos, acima de 1.600, e de casos, acima de 72 mil. Não existe sinal de que a situação deve melhorar. Cientistas temem o oposto; o descaso com medidas de segurança sanitária podem pressionar a tragédia para além.

Descaso bolsonarista

Desde o início do surto o presidente, Jair Bolsonaro, desdenha da pandemia. O político já chamou a covid-19 de “gripezinha” e, questionado sobre as mortes, disse “não ser coveiro” para opinar. No início do surto, Bolsonaro assegurou que a pandemia não mataria mais do que a H1N1 que, no seu ano mais letal, 2009, deixou pouco mais de 2 mil mortos.

Bolsonaro também sempre atuou como agente promotor de aglomerações. Durante todo o período de contágio descontrolado do novo coronavírus, o político já promoveu diversos atos com muitas pessoas em sua própria defesa, ou mesmo em ações de autopropaganda.

Hoje (30), o presidente desembarcou em São Raimundo Nonato, no interior do Piauí. Recém recuperado da covid-19, Bolsonaro montou cavalo diante de grande número de seguidores. Não suficiente a aglomeração, o presidente tirou a máscara, falou aos gritos e tocou diversas pessoas.

O Piauí baixou decreto estadual que obriga o uso de máscaras em locais públicos. Em caso de desobediência, qualquer cidadão está sujeito a multa de R$ 500 a R$ 1.000, em caso de reincidência.

Aglomeração banalizada

A pressão do governo, somada à omissão de chefes de executivos estaduais e municipais desorienta a população. No Rio de Janeiro, praias lotadas; em São Paulo, ruas cheias e filas em shoppings . Muitos nem sequer usam máscaras.

No início do surto, governadores e prefeitos adotaram um discurso moderado de enfrentamento ao governo Bolsonaro e defenderam medidas de distanciamento social como forma de combate ao vírus. A quarentena teve apenas percentuais baixos de isolamento – sempre em torno de 45% –especialmente entre os meses de abril e junho. No entanto, agora cedem à pressão de setores econômicos e autorizam em massa a abertura do comércio.

Em alguns estados, os governadores já articulam a volta às aulas. É o caso de São Paulo e Rio de Janeiro, estados com mais mortes por covid-19. Estudo da Fiocruz alerta que o retorno precoce das aulas pode colocar em risco 9,3 milhões de pessoas, e pode provocar a morte de até 35 mil idosos, maior grupo de risco. Entretanto, as vidas em risco não valem mais do que a ânsia de empresários pelo retorno de suas atividades e lucros.

Escolas de São Paulo não tinham sabão e papel higiênico. Agora vão ter álcool gel?

Lucro acima da vida

No Rio de Janeiro, vídeo creditado ao Sindicato dos Estabelecimentos de Educação Básica no Rio de Janeiro (Sinepe Rio), entidade patronal que representa escolas particulares, promove ampla desinformação ao defender o retorno às aulas. Na peça, eles questionam a ciência, desdenham de estudos e desvalorizam as mortes somadas aos milhares.

Em resposta, o Sindicato dos Professores do Município do Rio de Janeiro e Região (SinproRio) divulgou uma ampla nota de repúdio. “Nota-se no vídeo uma total falta de bom senso e ética com relação aos profissionais dos órgãos competentes de saúde, pesquisadores, os quais, neste momento de pandemia, se posicionam de forma contrária à possibilidade de retomada prematura das aulas presenciais”, afirma.

“É nítida a preocupação desse sindicato dos patrões, com o lucro que é colocado acima da vida, fazendo da educação uma mercadoria! Essa é uma atitude descabida de quem não considera o momento crítico que estamos vivendo, em nossa sociedade e no mundo, e não demonstra nenhuma empatia com o outro”, completa o sindicato dos trabalhadores.